quarta-feira, 3 de março de 2010

Rosa de Hiroshima

Em alguns momentos, nada faz sentido. O clima não faz sentido, o dia não faz sentido, nossos sentidos não fazem sentido. Não há vontade de gritar ou de falar por não ter o que dizer. Talvez seja minha personalidade verdadeiramente de flor, sem o sol, minhas pétalas fecham-se e a cor se apaga. Mas quero ser uma flor, quero a delicadeza doce de um cuidador que sorri frente à beleza. A questão é que, repentinamente, não entendo mais a mim. E não entendo essa mania burramente absurda de sentir. Sei que sou suficientemente forte, mas quero o direito de ser frágil, o divino direito de ser flor, apenas. Desejo ser apenas uma mulher e ser amada, amada por quem amo, sem duvidar disso por medo de ter meu amor fracassado ao descobrir que não sou amada como amo. Então invento, então jogo, então arrisco. Mas só o que quero, só o que desejo profundamente é seu peito amparando meu medo, seus braços amparando minha insegurança. É só o que quero, e é tanto, que tenho medo de ter.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A lucidez perigosa (Clarice Lispector)

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.

Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.

Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Juro que ainda acredito e respiro. Mas dói, confunde, paraliza.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Pseudo-poética

"Mas tu, Poesia Tu desgraçadamente Poesia

Tu que me afogaste em desespero e me salvaste

E me afogaste de novo e de novo me salvaste e me trouxeste

À borda de abismos irreais em que me lançaste

e que depois eram abismos verdadeiros"




Lendo Leminski, ouvindo jazz, pensando Vinícius, sentindo Clarice, vivendo Hilda. São tantos e eu o que sou? O que fiz de mim nessa desconstrução do que seria se tudo fosse outro, se eu fosse outra e construísse, ao invés de apenas tentar embelezar o que já está feito, se criasse e não rebordasse o óbvio, o nulo, o pequeno. O que fiz de mim senão a sombra de tantos desejos que eu não tinha e tantos medos que hoje tenho? Para onde devo ir senão lugar algum, já que cá estou e nada dentro de mim grita de modo que eu possa ouvir? Ou já cessaram os gritos tantas vezes ignorados pelo conforto risível da nulidade primorosa. Agora quero ir correndo, sem caminho talvez, pois os que havia, e eram tantos, ficaram para trás, aí pelas paragens. Conservo, ainda assim, o hábito nocivo da sombra salvadora que nada faz senão embotar ainda mais minha já difícil caminhada. O que pretendo de mim é o que não sei ser pois, por Deus, eu seria se o soubesse, mas não devo saber porque construí a fraqueza de onde havia força. Sei que olho ao redor e vejo-me só entre música e poesia, entre gênios e ícones e sou eu o que em meio a isso? Sombra como a sombra em que me escondo. Medíocre poesia velha que não tem mais idade para germinar e teima em pensar que ainda há razão para gritos bardos a essa altura do mundo e dos acontecimentos.


Tento ainda fazer a poesia germinar mas não há ouvintes para o que julgo belo, belo e vazio como foi minha vida fundamentada. Ser amoral em busca de uma moralidade burra, quase esquizofrênica quando não há mais tempo pra nada. Meus sonhos estão perdidos e perdidos para sempre pois nunca soube sonhar sozinha e como haveria de poder fazê-lo agora se nunca soube ser sozinha? Finjo que posso, finjo que sei, mas finjo e ainda assim, penso-me grandiosa pois Pessoa também pensou e era grande, brilhante, gênio, eu, entretanto, sou meramenta pós-moderna e não sou nada pois toda a genialidade do mundo já fora concedida, de modo mais ou menos justo, a seus criadores, agora sou cópia de tudo o que eu queria e tudo o que eu rechaçava; mas eu, eu mesma, sou coisa alguma. Esboço malfeito de todos os meus propósitos. Massa frustrada e cansada, sombra incolor.

Fragmento de caos II

Manhã cinza, cor da cidade e de minha alma sem paz. Sinto frio, muito mais do que a temperatura amena, muito mais que a garoa, sinto frio e minha pele se arrepia apesar do ar quente que quase faz suar quando me protejo do mundo dentro da cápsula de metal vermelho onde habita minha alma em seus momentos mais ruidosos. O frio se dá como um bloqueio, inexplicável, embotamento dos desejos. Até dos desejos. Tento fazer-me sublime mas sou humana e com ressalvas. Não sei se gosto de adorar-me mundana. Não sei se gosto mesmo de inúmeras coisas que tenho vontade (ou talvez meramente cobice...). E ao ouvir que vivo de caprichos, como exaltar-me ou negar (por capricho...).

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

The thing is: writing doesn't go with portuguese wine at all. And maybe I am not going with lots of things in my life. Sometimes I ask myself what am I doing, sometimes I know or I pretend to... I'm sure that I'm really working succesfuly in my spiritual development... I don't know anything.
So: if you're going to write, don't drink.

Fragmento de caos

Não, não sei. Não sei e não entendo uma porção de coisas que finjo saber e entender e parto para o universo racional cunhado por mim de modo demagógico. Nem sempre, por vezes a minha razão é pura, em geral isso se dá quando envolve outras pessoas. Hoje pela manhã contava a meu oxigênio o conflito que há em mim, será que devo ser o que sou, será que sei ser quem sou, quem sou?