terça-feira, 8 de julho de 2008

Special thanks to myself

Tudo acontece porque estou aqui e é essa pessoa que gosto de ser. As idéias existiram sempre, estavam apenas guardadas, sem razão para vir ao mundo, a doce lembrança do que gosto de ser fez com que as resgatasse e as trouxesse à luz, algumas delas ao menos; outras, ainda prematuras, continuam na gaveta - era mais romântica a época em que escritores de gaveta realmente as utilizavam- e outras tantas, talvez já prontas, correm aí pelo mundo querendo ser encontradas. Todos os dias, relembro a lição que certa manhã recebi de mim, como a pessoa que gosto de ser, e concentro-me em pensar sem vírgulas, o resultado é estrondoso, embora exija um certo controle de foco ainda a ser aprimorado. Todos os dias, busco idéias no infinito, soluções no cotidiano. Entretanto, nem todos os dias são fáceis e as soluções, muitas vezes, pulverizam-se e não as enxergamos. Aprendi sobre mim que tenho falhas a corrigir, mas estas aliam-se a grandes qualidades que aprecio e reconheço: sou divinamente humana. Gosto de olhar no espelho e descobrir-me como sou. Declaro meu amor a mim, à pessoa que gosto de ser, e é a ela, à pessoa que gosto de ser, que devo toda a minha inspiração.

Provocações pós- modernas

“Narcisismo: forma inédita de apatia
feita da sensação epidérmica ao mundo e, ao mesmo tempo,
de indiferença profunda em relação a ele.” ( G. Lipovetsky)


Quarta-feira, dezenove horas. Ela salva seus arquivos, repassa a agenda, desliga o computador, sai em direção ao elevador, uma parada no toalete, confere sua aparência no espelho: sim, estava bem, aquele modelo de saia cai sempre bem em seu corpo. Despede-se de algumas pessoas sem nome. Chegando à garagem, entra em seu carro, ajeita o espelho, mais uma olhada em sua imagem, liga o rádio e parte para o trânsito. Em meio a uma multidão de veículos, ela é uma notável anônima, como tantas outras vidas tão importantes que cruzam a sua na via expressa.
O celular toca, ela ativa o viva-voz, entende o risco de dirigir segurando o telefone, havia marcado o jantar com uma velha amiga, conheceram-se na faculdade, ambas com sólidas aspirações profissionais, porém também mulheres, bonitas, cultas, sensíveis, tornarem-se amigas, afinal, era dificílimo encontrar pessoas com tantas qualidades, deveriam ter jantado juntas na segunda, mas ela teve uma reunião, remarcaram para hoje, entretanto, agora é a velha amiga quem está presa em um projeto enorme. Não havia problema algum, marcariam para outro dia, próxima semana, sabia que aos fins de semana a velha amiga tinha os filhos, o casamento, ela ficaria torcendo para que tudo desse certo.
Seguir para casa. Teria de providenciar algo para jantar, avisara a empregada que não jantaria em casa. Ela ainda lembra que em um passado não muito distante, adorava chegar em casa após o trabalho e cozinhar para o marido, mas agora ele não estava mais lá, recebera uma proposta irrecusável de trabalho no exterior, ela não podia abrir mão de sua carreira promissora: ficou, ele partiu. Não faria sentido ambos distantes e sozinhos, veriam outras pessoas, até o divórcio, pensariam. Ela ainda gostava muito de culinária, mas era triste cozinhar para ninguém, até porque ela era uma profissional bem conceituada, bem remunerada, poderia admirar a culinária dos melhores restaurantes do mundo, não havia razão alguma para pensar em ficar com cheiro de cebola nas mãos para fazer o jantar para a família todos os dias. Aliás, a família implicaria filhos, filhos implicariam seu corpo deformado, gordo, cheio de marcas, depois nunca mais haveria privacidade, individualidade, a vida dela jamais seria só dela, teria de dividir amor, espaço, alegria. Não, ela era uma executiva de sucesso, não havia espaço para tais banalidades em sua vida.
Pára o carro diante do belo edifício, o carro é identificado, abre-se o portão. Há mais pessoas aguardando o elevador, ela diz boa noite: não os conhece, não a conhecem. Em seu confortável e silencioso apartamento, um banho demorado, após um dia produtivo de trabalho. Comida japonesa delivery, uma taça de vinho, um pouco de televisão,música, um bom livro, uma olhada na agenda do dia seguinte: absolutamente repleta de reuniões importantíssimas entre as 10 e as 19, o restante do tempo, preenchido por compromissos inventados e pintados como imprescindíveis, ainda sobrando no final da noite, quando as luzes do mundo começam a se apagar e as resoluções importantes não tem cabimento, tempo para uma profunda solidão infinita, plena de si mesma.

Grey shoes

Quero um par de sapatos cinzas para o dia de meus anos. Preciso de sapatos cinzas que combinem com o belo vestido que ganhei de minha mãe. Ele me acompanha a busca dos sapatos cinzas. Encontraremos todos os nossos amigos em um lugar interessante e divertido. Meus pais também vão. Gostaria de organizar um jantar regado a vinho branco para eles todos, mas ficaria mais complicado, dinheiro, desordem, não teremos tempo, o bar é mais prático. Concordo , mas quero um par de sapatos. Ele vai comigo. Penso que, talvez, seja isso o casamento. Ele não quer efetivamente passar uma bela tarde de sol em um feriado procurando sapatos, menos ainda sapatos cinzas, menos ainda sabendo que, para combinar com o vestido estranho que minha mãe me deu, há um par de sapatos roxos em meu armário onde não cabe mais nenhum par de sapatos. Ele sabe disso porque eu disse que havia sapatos roxos, outra cor pouco ortodoxa para sapatos, eu jamais reclamei a falta de espaço em meu armário.Ele tem sapatos pretos, marrons e beges, uns dez pares, usa quatro, os outros estão meio ralados, entendo a incompreensão de minha necessidade de sapatos cinzas, roxos, verdes, prateados, dourados, amarelos, vermelhos, envernizados, muitos dos quais possivelmente serão usados apenas uma vez. Mas ele vai comigo. Procura os sapatos que não existem no mundo real, como tudo o que eu busco. Ele está a meu lado. Seria isso o amor? Gastar seu dia procurando algo de que você não precisa e sabe que, efetivamente, o outro também não precisa e, correndo de encontro ao pensamento minimamente racional, sabe que há uma chance em mil de encontrar? Sei que a paixão não é isso. Apaixonados, nunca pensamos que não precisamos do que o outro quer, muito menos achamos que não é estritamente necessário a ele. Apaixonados, acreditamos que tudo o que o outro pensa ou deseja é pleno, irretocável e indiscutível. Ele já pensou assim, já agiu assim, já foi apaixonado, apenas. O amor é diferente. Amando, conseguimos aceitar as atitudes e decisões do outro mesmo que discordemos delas. Conseguimos participar das coisas importantes para o outro, mesmo que aquilo nada signifique para nós e, mesmo distantes, partilhamos nossos mundos. Quando amamos, desgostamos de infinitas coisas e, ainda assim, entendemos. Por amor, passamos tardes buscando sapatos cinzas e uma eternidade desejando as melhores coisas do mundo a ele, a mim. E fazemos nosso os nossos sonhos, dedicamos a ele, nossos projetos. Aceitamos, acreditamos e lutamos por doses de felicidade, ao menos diárias. Por todos os dias de nossa vida.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A sublime razão do caos

Agora, como sempre, sinto saudades presas a lógica ridícula do amor: perco o que não tenho e recupero o que nunca ganhei mas, ainda assim, reservo-me o direito de possuir. Não preciso pensar muito para concluir que nada tenho de meu a não ser desejos, idéias e aspirações. Projetos. Pilhas subjetivas de projetos inacabados sem começo. Procuro entre minhas posses bens de terceiros e encontro projetos em andamento, com outros nomes. Separo a vida em alguns pares de esferas coloridas e gasto tempo equilibrando-as, não posso soltar as mãos. Derrubá-las implica coragem de correr atrás de roliças estruturas fugitivas, outros me olhariam, não quero que me olhem. Quero profundamente ser notável anônima.As pessoas me entediam, não quero falar, faculdade hipócrita mal distribuída a tantos que não tem o que dizer. Há poucos minutos, quis chorar, mas não encontrei meu bem perdido e não chorei, mesmo querendo. Não posso chorar sabendo que o que tenho está por aí, pertencendo a quem não sou eu. Escuto passos, escuto tudo. Nesse instante escuto o som de meu objeto perdido, escuto ou crio, nunca compreendo a distinção. Quero anunciar o desaparecimento de um bem inestimável. Chamar a polícia e a imprensa.Quero desesperar-me diante dos que me são caros. Quero incomodar o mundo com meu destemperado surto. Nada faço frente a idéia de querer. Quero encontrar minha jóia, por isso nos temos, o encontro real, propõe perda possível, não encontro, não perco. Quero ainda chorar. guardarei todas as lágrimas para meu amuleto e seu retorno intacto. Perco-me pois tenho a mim, o reencontro, porém, se dá poucos passos a diante.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Fragmento inacabado I

Num átimo, eclode o que há tempos mantinha escondido no peito, sob a roupagem de coragem, de desapego. Ela não precisa de muito, pois esforça-se para se resolver, mas ali, naquele acontecimento tão incrivelmente banal, percebeu que pouco, quando faz-se no mundo, arrisca se tornar nada facilmente.

Ela arriscou, não sabe ser diferente. Não sabe dever pois entende-se livre, por isso não pede. Certamente seguirá assim, frustrar-se-a em alguns momentos, mas passa. Enquanto isso, mantém-se plena de uma individualidade supra- racional que a conduz a uma existência ímpar onde as afetações externas são poucas, mas são.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Por hora, após milhares delas

Tudo está acontecendo em velocidade meteórica. Fico pensando, claro que a cada trinta segundos penso uma coisa diferente, mas nesses exatos trinta segundos penso se não é o universo conspirando a meu favor. Não podemos dosar as reações dos outros pelas nossas, tampouco podemos medir o amor que nos é oferecido pelo que temos a oferecer. Será que não é comodista demais achar que qualquer amor serve? Será que acredito, realmente, em um amor que machuca, prende, limita, duvida? Será que um amor que tolhe é mesmo amor? É amor aquele que acusa? Talvez a questão não seja nem mesmo ser ou não isso amor. Talvez até o seja de alguma forma, para alguém. Mas será esse o tipo de amor que quero para mim? Sei que não é dessa forma que amo. Sei que meu amor sempre existiu apesar de tudo. E isso não implica amar com pesares, é só amar. Perdoar, entender, ou mesmo sublimar e não tentar entender. Talvez esteja errado, mas é assim que sou e é assim que sei ser. Posso me ferir por isso, claro, mas nada me mata porque sei que mesmo ali, onde a dor se instala, o amor é maior e será sempre. Talvez seja o universo dizendo: ei, você é maior que isso! Talvez seja meu coração cansado gritando: eu mereço mais que isso!

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Valsa Brasileira

(Certas canções fazem bem pra alma)

Vivia a te buscar
porque pensando em ti corria contra o tempo
Eu descartava os dias em que não te vi
como de um filme a ação que não valeu
Rodava as horas pra trás, roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho pra encostar no teu
Subia na montanha não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol antes do sol raiar
Saltava as noites sem me refazer
E pela porta de trás da casa vazia
Eu ingressaria e te veria confusa por me ver
Chegando assim mil dias antes de te conhecer
(Edu Lobo e Chico Buarque)